Sexta-Feira Não Silencia Mais

Confesso: me incomoda.

     
Imagem: IA

Me incomoda ver a Sexta-feira Santa passando como qualquer outro dia comum, o barulho não diminui, as risadas continuam altas, os stories seguem sendo postados sem pausa… e, no meio disso tudo, o sentido vai sendo engolido.

Não é sobre tradição vazia é sobre memória, é sobre respeito.

Nós aprendemos ou pelo menos deveríamos ter aprendido, que esse não é um dia qualquer, é um dia de dor, de reflexão, de entrega, mas hoje parece que sentir! Sentimento, virou opcional… e, pior, descartável.

A Páscoa, então, foi sequestrada, roubaram o significado e deixaram no lugar um monte de embalagens bonitas, transformaram fé em vitrine, amor em produto, e o sacrifício… esse virou, apenas detalhe, o que mais me espanta e me deixa extremamente triste não é o chocolate, é o exagero, é a necessidade de transformar tudo em consumo, em comparação, em aparência, o ovo não pode ser simples, precisa ser caro, grande, com personagens de desenhos animados ou de filmes, ele precisa ser na verdade “instagramável”, Como se o valor da data estivesse no preço da prateleira.

Enquanto isso, a cruz, que deveria nos fazer parar, já não interrompe mais nada, talvez o problema não esteja só nas lojas, esteja em nós mesmos, na nossa

pressa de viver tudo sem sentir nada, na dificuldade de silenciar, na escolha constante de substituir o essencial pelo imediato.

Na verdade estamos desaprendendo a respeitar o que não se compra, e isso dói muito!

Dói porque a Sexta-feira Santa não pede festa, ela simplesmente, pede pausa, pede consciência, pede um pouco de humanidade, coisa que, ironicamente e estranhamente parece cada vez mais rara em nossa sociedade altamente descomprometida com valores e tão comprometida com lakes e as aprovações digitais.

Não, eu não estou dizendo que não se pode celebrar, mas celebrar o quê, afinal?

Imagem: internet 


Se a gente esquece o motivo, sobra só o consumo, e o consumo, sozinho, nunca preencheu e nem preencherá ninguém.

Talvez ainda dê tempo de resgatar alguma coisa, nem que seja o silêncio, nem que seja um instante de verdade em meio ao superficial, porque, no fim, a Páscoa aquela celebração de liberdade da escravidão de um povo não deveria caber em um ovo de chocolate, em um prato delicioso de bacalhau em pratos lindos de peixes diversos, numa mesa farta, com comidas regadas ao coco e vinhos, mas infelizmente hoje, é exatamente lá que ela está sendo deixada e isso é muito triste, mesmo muito triste!
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